O professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Tiago Resende Botelho, permaneceu afastado de suas atividades entre 1º de maio de 2017 e 31 de outubro de 2018 para realizar um doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal. Durante todo o período, continuou recebendo normalmente sua remuneração como servidor público federal.
Anos depois, um fato passou a chamar a atenção: embora o afastamento tenha sido autorizado para cursar o doutorado em Coimbra, o título de doutor atualmente informado em seu perfil institucional foi obtido pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
A diferença entre o curso que justificou o afastamento e o título posteriormente obtido levou a Universidade Federal da Grande Dourados a instaurar um procedimento administrativo para apurar eventual obrigação de ressarcimento aos cofres públicos.
MPF acompanhou o caso
Em junho de 2020, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento para acompanhar as providências adotadas pela UFGD.
Conforme a portaria, a universidade informou que havia aberto um processo administrativo de ressarcimento ao erário contra Tiago Botelho, em razão de possível descumprimento das obrigações relacionadas ao afastamento para realização do doutorado na Universidade de Coimbra.
O documento também registra que o caso foi encaminhado à Corregedoria da universidade para apuração de eventual responsabilidade do servidor e de integrantes do Conselho Diretor da Faculdade de Direito.
A existência do procedimento, entretanto, não significa que tenha havido condenação ou reconhecimento definitivo de irregularidade. A portaria apenas confirma que os fatos passaram por apuração administrativa.
Quanto foi pago durante o afastamento?
As fichas financeiras referentes ao período ainda não foram localizadas para confirmar o valor exato recebido.
Considerando uma estimativa de remuneração bruta entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por mês, os pagamentos efetuados durante os 18 meses de afastamento poderiam variar entre R$ 270 mil e R$ 360 mil.
O montante é apenas estimativo e depende da remuneração efetivamente recebida no período.
Carreira política e remuneração
Além da atuação como professor da UFGD, Tiago Botelho ocupou, entre 2023 e 2026, o cargo de Superintendente do Patrimônio da União em Mato Grosso do Sul.
Segundo dados do Portal da Transparência citados no levantamento, sua remuneração registrada em março de 2026 foi de R$ 36.022,00. Já em novembro de 2025, o valor bruto registrado chegou a R$ 57.415,92, quantia que pode incluir verbas indenizatórias, retroativos ou outros pagamentos eventuais.
Posteriormente, Botelho deixou a SPU/MS para retornar à UFGD e anunciar sua pré-candidatura a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Perguntas que continuam sem resposta
Apesar da existência do procedimento administrativo, até o momento não foi localizada decisão pública informando o desfecho da apuração.
Permanecem sem resposta alguns questionamentos:
- O professor devolveu algum valor aos cofres públicos?
- O processo administrativo foi arquivado?
- A UFGD reconheceu justificativa legal para afastar a obrigação de ressarcimento?
- Houve cobrança administrativa? Em caso positivo, qual foi o valor?
Enquanto essas informações não forem oficialmente esclarecidas, permanece a dúvida sobre o destino dos recursos públicos pagos durante o período de afastamento.
Como se trata de verba pública, o resultado do procedimento administrativo possui evidente interesse coletivo e reforça a necessidade de transparência sobre a destinação dos recursos e as conclusões adotadas pela administração universitária.




