A disputa pela vaga do quinto constitucional no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) ganhou contornos políticos e passou a provocar comparações que colocam o governador Eduardo Riedel no centro de um debate frequentemente explorado por setores da direita contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nos bastidores da advocacia e do Judiciário sul-mato-grossense, cresce a comparação entre a ex-procuradora-geral do Estado, Ana Carolina Ali Garcia, e o advogado-geral da União, Jorge Messias. Para críticos do processo, ambos seriam exemplos de nomes extremamente próximos aos chefes do Executivo e que passaram a ser associados a projetos de ascensão para cargos de grande relevância institucional.
A analogia tem causado desconforto porque Riedel costuma ser identificado como uma liderança de centro-direita, apoiada por grupos políticos que frequentemente criticam Lula por indicar pessoas de sua confiança para posições estratégicas no sistema de Justiça.
“Dois pesos e duas medidas?”
A principal crítica levantada por integrantes da advocacia é a existência de um possível duplo padrão no debate político.
Enquanto adversários do governo federal costumam questionar indicações consideradas excessivamente vinculadas ao círculo pessoal e político de Lula, a eventual chegada de Ana Carolina ao TJMS estaria sendo vista por opositores como uma reprodução local da mesma lógica.
Nos bastidores, a avaliação é de que a proximidade institucional construída ao longo dos anos entre a ex-procuradora e o governo estadual pode acabar se tornando o principal fator de peso na escolha final.
Saída da Procuradoria aumentou especulações
O debate ganhou força após Ana Carolina deixar a chefia da Procuradoria-Geral do Estado logo depois da abertura da vaga deixada pelo desembargador Ari Raghianti.
Embora sua candidatura esteja plenamente amparada pelas regras do quinto constitucional e não exista qualquer irregularidade formal apontada até o momento, a movimentação alimentou especulações de que sua entrada na disputa já ocorreria com amplo favoritismo político.
Entre advogados e integrantes do Judiciário, a discussão passou a girar menos em torno de quem possui qualificação para ocupar o cargo e mais sobre a real influência dos bastidores na definição do futuro desembargador.
Processo aberto, resultado previsível?
É justamente esse ponto que concentra as maiores críticas.
Para setores da advocacia que acompanham a disputa, existe a percepção de que o desfecho estaria praticamente definido antes mesmo da formação da lista tríplice que será encaminhada ao governador.
Se essa percepção se confirmar, argumentam os críticos, etapas fundamentais do processo — como a formação da lista sêxtupla pela OAB e a votação interna do Tribunal de Justiça — correriam o risco de serem vistas apenas como formalidades protocolares.
A leitura de opositores da indicação é resumida em uma frase que circula reservadamente entre integrantes da classe jurídica: se em Brasília os aliados de Lula são acusados de ocupar espaços estratégicos por critérios políticos, Mato Grosso do Sul estaria assistindo a um movimento semelhante sob a condução de um governo que construiu parte de sua identidade justamente em oposição a esse modelo.
Enquanto a disputa segue oficialmente em aberto, o caso já extrapolou os limites da sucessão no TJMS e passou a expor uma discussão mais ampla sobre influência política, independência institucional e coerência de discurso entre governos de diferentes espectros ideológicos.




