No dia 8 de maio de 2026, a Igreja Católica Apostólica Romana celebra o primeiro aniversário da eleição do papa Leão XIV, nome escolhido pelo cardeal americano Robert Francis Prevost ao ser eleito, na quarta votação do conclave de 2025, o 267.º sucessor de Pedro e o primeiro pontífice proveniente dos Estados Unidos em mais de dois milênios de história eclesiástica. A eleição, ocorrida um ano atrás nesta semana, surpreendeu parte do colégio cardinalício por sua velocidade: apenas dois dias de conclave, quatro rodadas de votação e a fumaça branca surgindo da chaminé da Capela Sistina às 18h07 do horário de Roma, em 8 de maio de 2025, anunciando ao mundo que a Igreja havia encontrado em um chicagoano de 69 anos o sucessor do argentino Jorge Mario Bergoglio, falecido em 21 de abril de 2025 aos 88 anos.
O primeiro ano do pontificado de Leão XIV tem sido descrito pelos analistas vaticanos como um período de consolidação cautelosa, no qual o novo papa buscou preservar os elementos centrais do legado de Francisco, a ênfase nos pobres, o diálogo com as periferias da Igreja, a postura de misericórdia pastoral, sem acirrar os conflitos doutrinários que dividiram a hierarquia eclesiástica ao longo dos anos anteriores. Leão XIV nomeou, em seus primeiros meses, um conjunto de colaboradores que combina figuras de confiança de Francisco com perfis mais conciliatórios com o campo conservador do colégio cardinalício, sinal de que o novo pontífice prefere a construção de consensos internos à continuação das batalhas que exauriram parcialmente o capital político de seu predecessor nos últimos anos de pontificado.
A escolha do nome Leão XIV é, em si mesma, um programa teológico e político. Os papas que adotaram o nome Leão ao longo da história da Igreja foram, em sua maioria, pontífices de destacada atividade doutrinal e social: Leão XIII, papa de 1878 a 1903, é lembrado pela encíclica Rerum Novarum, de 1891, considerada a certidão de nascimento da Doutrina Social da Igreja, na qual a Santa Sé pela primeira vez enfrentou de forma sistemática as questões levantadas pela industrialização capitalista e pela questão operária. Ao escolher esse nome, Prevost sinalizou sua intenção de retomar o protagonismo da Igreja nas grandes questões sociais contemporâneas, uma continuidade com o legado de Francisco que, ao mesmo tempo, ancora o novo pontificado em uma tradição doutrinária mais robusta e menos suscetível às críticas de improviso pastoral que foram dirigidas ao seu predecessor.
No campo geopolítico, Leão XIV herdou de Francisco uma série de dossiers de alta complexidade: a guerra na Ucrânia, para cuja solução o Vaticano tem buscado exercer o papel de mediador neutro que sua natureza de Estado sem interesses territoriais lhe permite reivindicar com alguma credibilidade; o conflito em Gaza e a situação da comunidade cristã na Terra Santa, sobre a qual o cardeal Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, mantem interlocução direta com o papa; e a tensão crescente entre as igrejas cristãs de diferentes tradições, questão ecuménica que Leão XIV, como ex-prior-geral da Ordem de Santo Agostinho com décadas de experiência em missões internacionais, está singularmente posicionado para abordar com profundidade e sensibilidade.
O Brasil, que possui a maior população católica do planeta, com aproximadamente 120 milhões de fiéis, acompanha o primeiro aniversário do pontificado de Leão XIV com interesse especial. A eleição de um papa americano, em substituição a um argentino, deslocou para o Norte o eixo geográfico do papado depois de 12 anos em que a Igreja foi dirigida por um pastor formado no catolicismo popular latino-americano. Para os católicos brasileiros, a questão é se Leão XIV manterá a ênfase nas questões sociais e na teologia do povo que marcou o pontificado de Francisco, ou se a sua formação norte-americana produzirá gradualmente um deslocamento de prioridades em direção a temas mais próximos da agenda conservadora do catolicismo dos Estados Unidos.
O primeiro ano de Leão XIV sugere, até o momento, que o novo papa é mais administrador do que reformador, mais construtor de pontes do que demolidor de muros. Em uma Igreja profundamente dividida, essa postura tem a virtude de evitar rupturas que poderiam custar caro à unidade institucional, mas também o risco de ser lida como timidez diante de questões estruturais que Francisco não hesitou em enfrentar, ainda que sem sempre resolvê-las. O segundo ano do pontificado, que começa amanhã, dirá se Leão XIV encontrará sua voz própria ou se se contentará em ser o guardião responsável de uma herança de outro.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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